5ª TEMPORADA

Terça-feira, 4 de Março de 2008

RELATOS DE LOUCOS


Esta reportagem foi publicada na extinta revista O CRUZEIRO em 30 de março de 1963 por Audálio Dantas, um dos melhores repórteres do País. Passados 38 anos, a nova divulgação de seu sensível relato sobre o cotidiano do hospital psiquiátrico Juqueri, em São Paulo, pretende fortalecer a luta antimanicomial .


O repórter assiste a tudo isto, tonteia, quer reter o máximo na me-mória para fazer urna reportagem fiel e tecnicamente perfeita — a descrição de um todo. E verifica que o todo, de tão anormal, não pode ser descrito. Por isso, a reportagem vai sendo marcada pelos fatos isolados, tragédias dentro de uma grande tragédia que é o Juqueri; o particular que é síntese do geral. Assim:


PASSARINHO PRESO


Pátio da 1ª Colônia de Mulheres. A mulher nua está num canto de muro, encolhida. Diante dela, avultando em negrume de asas, um urubu. De vez em quando ela faz um gesto que espanta a ave (por que insiste o urubu em comer aqueles dejetos?) e repete a mesma frase: - Lá em casa eu tinha um passarinho preso, tão bonito na gaiola. E agora? E agora?


O ROSTO PERDIDO

Mesmo pátio. Bem distintos de outros gritos (no pátio estão 366 mulheres, mais da metade nuas), os gritos da mulher que tenta envolver a nudez com um pequeno pedaço de cobertor: - Perdi as minhas feições. Não tenho espelho, mas sei que perdi as minhas feições! De repente, o repórter é médico todas o tratam por doutor. “Por que o senhor não vem sempre, doutor, pra ver a nossa desgraça?”, em queixas sem fim. Os momentos de consciência lhes são terríveis, mui-to mais do que a ausência total da razão. A pequena centelha de juízo re-vela tudo, de chofre: a nudez do corpo. o cheiro ruim que outros corpos desprendem, a sujeira que se pisa. a ausência de outra paisagem que não aquela que termina nos muros, o imundo sórdido do pátio. - Perdi as minhas feições, repete a mulher que tenta esconder a nu-dez com pedaço de cobertor.




O GESTO DE AMOR PERDIDO

Outro pátio (o do 8º pavilhão). onde estão as mulheres mais velhas. entre elas uma que aperta contra o corpo magro urnas bonecas de trapos. Ela é toda amor, quando faz o gesto de estreitar aquelas bonecas contra o peito e sorri inteirinha. Até que a cena se desfaz, no gesto violento de outra mulher que passa e lhe dá um safanão. As bonecas caem no chão, sobre dejetos, e a mulher que as apertava contra o peito abre os braços, na inutilidade do protesto. A velha, bem velhinha e quase lúcida. assiste à cena, diz que é “sempre assim”, sente muita pena da pobrezinha, “porque ela pensa que aquelas bonecas são criancinhas dela” e continua o seu trabalho de costu-ra. com sua agulha feita de um grande espinho. O que ela costura é um trapo irremediável. Por quê? “É bom a gente fazer alguma coisa, senão co-meça a ficar de juízo atrapalhado. Trabalhar não cansa; descansar cansa”. A mocinha atendente explica que é sempre assim: muito doente, em fase de recuperação, gosta de trabalhar. Mas, como não há meios, “eles ficam doidos novamente”.

VERONICA SOZINHA NO MUNDO

O repórter ouve muitos apelos aqui no Juqueri. Em cada pátio, em cada dormitório, em cada enfermaria onde não há enfermeiros, há criaturas que pedem socorro. As vezes, desejam apenas o socorro de urna pala-vra. Ou de uma presença que não seja a de outras desgraças. A velhinha na cama da enfermaria sem enfermeiros, pediu socorro assim: — Ou, meu filho! Venha cá. A gente chega perto, ela diz: — Vocês que estão aqui são meus parentes, não são? A gente diz que sim, ela ri e chora: — Ah, hoje encontrei alegria no meu inferno. Nunca veio parente meu aqui. A gente fica um pouco, quer sair, ela apela: - Me deixem aqui não! Seu nome — ela ainda se lembra — é Verônica. Sozinha na cidade alucinada do Juqueri. Sozinha no Mundo, também. informa uma serviçal. Aqui, Verônica serve como símbolo. Porque, como ela, muitas são as criaturas esquecidas no grande depósito do Juqueri.


UM BANCO NO PÁTIO

No pátio do Pavilhão de Menores há bancos, sob árvores nuas. E há meninas nuas e mocinhas, quase mulheres, também nuas. Todas andam sem rumo, todas pisam a sujeira que seus próprios corpos deixaram no pátio. E com elas passeiam — ah, . a presença constante! — os urubus. Num dos bancos está a menina-moça de grandes olhos negros e parados. Está inquieta; senta-se, deita-se, fica de pé sobre o banco. Vêm um, dois, três, quatro urubus, pousam no encosto do banco, depois tentam pousar no corpo da menina- moça. A terrível explicação para a cena é dada por uma serviçal: — A menina ficou mulher; os bichos sentem que ela é mulher.

UMA FLOR PARA MARIA

O nome daquela moça que olha através da grade, a gente não sabe. Seja Maria, que é nome bonito, e porque ela está olhando o jardim lá de fora (o pavilhão fica perto da administração). No inferno do Juqueri, há o milagre deste jardim, com flores e tudo. Maria na janela pede uma flor. É preciso dar uma flor a Maria, a gente vai e dá. Maria sorri, vira-se e ergue sua flor para que todos, lá dentro do pavilhão mal cheiroso, desfrutem o seu

HOMEM NU ACUADO

Num dos pátios da 8ª Colônia, estão mais de quatrocentos homens, quase todos nus. Sol a pino, os homens prostrados em sua nudez. Poucos se dão contra desse fato. Num canto de muro, acuado como bicho, um destes grita: - Eu não sou mais homem! Não é, mesmo. Como não o são os outros desamados do pátio. Mas há quem ache que seja homem, só porque a administração mandou algumas calças para distribuição na 8ª Colônia. Um que acabou de receber calças corre como um cavalo pelo pátio: - Eu já sou homem, eu já sou homem! Esse luxo é uma desgraça, comenta um que não ganhou calças.

FOME À MESA

A fome é presença constante aqui no Juqueri (a maioria dos óbitos é por inanição). Além da falta de comida, e da comida ruim, há a disputa pelos maus bocados servidos. Para ilustrar, basta descrever um momento, de hora do jantar, na 4ª Colônia de Homens. Sobre as grandes mesas vão sendo colocados os pratos, com a comida – arroz, feijão, pelancas de carne, polenta, tudo uma papa só – primeiro para as moscas e depois para os homens que esperam impacientes, lá fora. Quando todos os pratos estão na mesa, deixam-nos entrar. É uma avalancha que invade o refeitório. Olhos ávidos de fome sobre os pratos. Também, que dignidade pode ter um jantar de homem nus? Só o estômago fala, agora. E o drama está posto na mesa: quem é mais agressivo, toma o prato de quem é passivo (ou mais fraco), sempre cuidando para que um ainda mais agressivo (ou mais forte) não lhe tome a presa. E come tudo sem remorso (nem nós, de fora, sentimos remorso), diante dos olhos dos que estão com fome à mesa – nesse banquete desesperado.

PESADELO NO DORMITÓRIO

Um pesadelo, em si, é cada dormitório, de cada pavilhão, de cada colônia no Juqueri. Na 8ª Colônia é assim: a porta se abre, a gente recebe o impacto do calor abafado lá de dentro. E do cheiro, que a gente não pode dizer como é – resultado de todas as misérias humanas aqui reunidas. Não se vê nada, assim de entrada. Aos poucos, a luz fraca vai permitindo que a gente assista ao terrível espetáculo (dantesco é adjetivo que não serve, por ser lugar-comum, mesmo que aqui neste dormitório infernal). Há camas sobre camas, no jeito de beliche. E corpos sobre corpos, no jeito de trastes empilhados. Uma ou outra cama tem um resto de colchão, por isso os doentes dormem sobre os estrados de arame, no jeito de ficarem seus corpos cheios de chagas. O sono eles é feito de gemidos, Senhor Deus dos Desgraçados! A paz, que poderia vir com o sono, também lhes é negada. Quem grita essa verdade é o velho nu que anda de ponta a ponta pelo corredor, no seu lamento: - Comeram o meu colchão, comeram o meu colchão!

CLÍNICA PARA A MORTE

Em cada pátio, em cada dormitório, em cada canto do Juqueri, cada homem está morrendo – uns mais depressa, outros mais devagar. Mas a morte está em toda parte, bem o anunciam esses urubus que voam em círculo lá em cima. Pode-se morrer em qualquer lugar, a qualquer hora, mas o lugar de morrer mesmo é chamado clínica. Cada colônia tem a sua clínica para receber os que são descobertos com doenças de corpo – disenteria, pneumonia, caquexia (fome, em linguagem vulgar), desidratação. Mesmo que haja uma assistência médica regular, as condições dessas clínicas não permitem a recuperação dos doentes. Para exemplo – mau exemplo – serve a Clínica da 8ª Colônia de Homens. Por que chamam isso de clínica, a gente não sabe, pois o que a gente vê é assim: salão com camas, doentes amontoados nas camas, colchões podres de sujeira. Gente para cuidar, não há. Só um homem, que fecha a porta para não sentir o cheiro (ninguém, a não ser aqueles condenados, pode suportar o cheiro da clínica) terrível. A capacidade da clínica é para 56 doentes, mas aqui estão 91 (agora há pouco eram 92, mas um acaba de morrer). O homem encarregado (um simples serviçal) só chama o médico de plantão, no Hospital Central, se consegue descobrir no amontoado alguém que está em agonia. O homem encarregado, chave na mão pergunta: - O senhor tem coragem para ver? A gente tem, que essa profissão exige. Então, o homem encarregado abre a porta. A clínica é um salão de horrores, com repórter no meio. Doentes gemem no amontoado das camas e no amontoado do chão de cimento. Há uma pasta fétida que cobre tudo, nesta sala de morte para a qual não há palavras.

A PAZ

O fim é a paz, aqui no Juqueri. E a paz está no cemitério do hospital, dentro mesmo do hospital. Paz sob cruzes de quem morreu tão desamado. Amanhã, aqui estará aquele homem que morreu na clínica da 8ª Colônia. Na paz que foi possível aos nossos desamados irmãos loucos.























1 comentários:

alex e! disse...

...nossa, Tom, eu mesmo comecei a sentir esse cheiro fétido enquanto lia o post. E também me emocionei muito, ao perceber que loucos, na verdade, são aqueles que permitem que atrocidades como essa aconteçam sob a égide de uma "normalidade" completamente arbitrária e cruel. Fiquei chocado...